A buzina soava a dois quarteirões de distância, avisando que o carro do leite vinha chegando. Deixasse o que estivesse fazendo, assistindo desenho ou jogando gude no quintal, para pegar o litro, ordenava minha mãe. Na cozinha, a vasilha ficava separada, pronta para acondicionar o leite fresco vendido por Joedson, motorista da Pampa 1986 e receptor dos pagamentos, e Garrote que, pongado na carroceria da picape, servia os fregueses.

Garrote organizava militarmente a fila. O leite cremoso, cheirando a roça, era colhido em uma grande concha de metal e derramado vasilha a vasilha. A entrega em domicílio era socialmente conveniente, já que os fregueses podíamos aproveitar a circunstância para falar mal dos vizinhos e outras sociabilidades semelhantes. É verdade que às vezes suspeitava-se que o leite estava aguado, mas nada que gerasse algo além de uma ou duas reclamações das madames da vizinhança, diante das quais Garrote habilmente se desvencilhava: “tá aguada não, dona. Mas se tiver, é bom que hidrata”.

Em casa, o leite era fervido, criando uma nata espessa e amanteigada, podendo ser tomado puro ou tornando-se derivados: principalmente coalhadas e ambrosias, além de ingrediente de bolos e tortas.

Essa nostalgia foi inspirada por Seu Buiú, um dos frequentadores da lanchonete do Mandacaru, que lembrava esses dias como aqueles eram tempos mais dignos. Depois de aposentado tornou-se fero militante, entre outras causas, do boicote aos leites de caixa – a ponto de lançar no córrego da Conselheiro Franco uma média de café que lhe foi servida pingada. “Isso lá é leite! Tá mais pra mijo do Satanás”, dizia tomando a embalagem com um sopapo e lendo o rótulo: “citrato de sódio, monofosfato de sódio e disfofato de sódio. O câncer tá aqui!”, ralhava.

Para evitar tomar “essas porcarias”, Buiú cria uma vaquinha, na roça que sustenta na região do Alecrim Miúdo, onde tem como primeira obrigação do dia beber do leite puro, pintando de branco o bigode, enquanto observa a algazarra dos papa-capins no pé de caju miúdo que faz sombra em frente de casa. Descrente com os rumos lácteos da nossa sociedade, ele arremata: “leite longa vida só pra quem vende. Pra quem toma, bom mesmo é esse aqui”.

Publicado por Danillo Ferreira

Usuário de café, filosofia e arte. Fundador e editor do Feirenses, é blogueiro desde 2004 e feirense desde sempre.