As Feiras de Feira de Santana

Marcas de Feira

Marcas de Feira

Um dia desses, meu colega de faculdade apareceu com uma tatuagem nova lá na sala e a gente começou a viajar no desenho. Os traços eram estranhamente familiares. Mas nada de absurdo uma tattoo ser repetida por aí. A questão é que a tatuagem trazia uma sensação de pertencimento. Como se a visse diariamente em lugares muito próximos. Então percebi de onde vinha a sensação. Do Viaduto da João Durval. Mais especificamente de um grafite feito por um artista da terra: Kbça. O grafiteiro e tatuador reproduziu seus traços expostos nas ruas de Feira na pele do meu colega, e

Santini & Trio

Grupo feirense Santini & Trio se apresentará em Portugal

Os artistas de Feira de Santana continuam viajando pelo mundo para levar nossa música para outros continentes, depois do grupo Quixabeira da Matinha, Africania, Dionorina e da dupla Don Guto e Ícaro Oliveira, agora é a vez do grupo Santini & Trio embarcar para apresentações no exterior. O guitarrista e compositor Rony Santini, o contrabaixista Anderson Silva, o multi-instrumentista Rogério Ferrer e o baterista Flaviano Gallo estarão em Portugal de 30 de junho a 10 de julho mostrando o melhor da nossa música instrumental, juntamente com a produtora cultural Micheline Castro. Vencedores em 2017 do Prêmio Caymmi, um dos mais

Porque eu te amei

O que ‘Porque eu te amei’ tem a falar sobre Feira?

Já passado alguns meses do lançamento do filme feirense de Tiago Rocha, que gerou assunto durante um bom tempo e lotou praticamente todas as sessões enquanto esteve em exibição, o longa, embora já fora dos cinemas, ainda tem muito que falar. E não me refiro exclusivamente aos temas abordados no enredo. Como violência doméstica, abuso, estupro etc. Mas, também, sobre o nosso olhar sobre Feira. Porque eu te amei é uma espécie de grito da classe artística feirense. Uma produção independente, envolvendo profissionais e entusiastas da cidade, lançada por aqui de maneira honrada e reconhecida – principalmente por quem duvidou.

Irving São Paulo

O ator feirense Irving São Paulo

Provavelmente você conhece o rosto do ator Irving São Paulo, filho de um histórico cineasta brasileiro, Olney São Paulo. Irving, nascido em Feira de Santana, estrelou grandes novelas brasileiras, a exemplo de “Bebê a bordo”, “Mulheres de Areia”, “A Viagem” e “Torre de Babel”. Irving nasceu em 26 de outubro de 1964, em Feira, onde iniciou a atuar em peças de teatro. Faleceu precocemente, aos 41 anos de idade, vítima de pancreatite necro-hemorrágica. Recentemente o Vídeo Show dedicou uma edição do quadro “Memória Nacional” ao ator feirense, mostrando sua trajetória e múltiplos talentos (em especial a música):   A seguir,

Jogo de Nonô

O jogo de Nonô

“Tira a mão do ovo, Nonô!”, protesta Toinho Cabeção quando o coroa de 86 anos chega para almoçar. É assim todo início de mês: Nonô chega na lanchonete do Centro Mandacaru apoiando uma mão na bengala e a outra oscilando entre o bolso e algumas coçadinhas no meio da calça. Ele não terceiriza o saque da aposentadoria, tanto por vigilância orçamentária quanto por deleite ritualístico: após ir ao banco, compra os remédios do mês, apara o cabelo que lhe resta e arrisca tornar-se milionário nos seis números da mega. “Jogar na mega pra onde, Nonô? Vai gastar esse milhão com

A história da estrada de ferro de Feira de Santana

“A estrada de ferro de Feira de Santana a Cachoeira tinha de comprimento 48 quilômetros e de bitola 1,067 metro. O material rodante consistia de 56 unidades: seis locomotivas, três carros de primeira classe, quatro de segunda, um carro imperial, dois carros de bagagem e 40 para transporte de gado e da carga” – é assim que o historiador Rollie Poppino descreve a estrada de ferro de Feira de Santana, inaugurada em 1876 e extinta em 1964.

Inicialmente, a estação ficava atrás da Igreja Matriz, onde hoje funciona o Feiraguay. Naquela época, a região era basicamente o limite da zona urbana de Feira. Ainda segundo Poppino, a estrada foi um sucesso imediato. No primeiro ano de operações a companhia que operava a linha, a londrina “The Brazilian Imperial Central Bahia Railway Company Limited”, transportou mais de 25 mil passageiros e quase 6 mil toneladas de carga, principalmente fumo e gêneros alimentícios para os mercados da capital e das cidades do Recôncavo.

Estação Ferroviária de Feira

Estação Ferroviária de Feira (onde hoje é o Feiraguay). Conta-se que a foto foi tirada quando os feirenses aguardavam a visita do jurista Ruy Barbosa.

O tráfego de passageiros foi uma consequência da velocidade do transporte ferroviário. Por causa da estreita colaboração com os serviços marítimos da Baía de Todos os Santos, a viagem para Salvador durava menos de sete horas. Assim, tornou-se possível ir de Feira à capital pela manhã e voltar na manhã seguinte.

A estação ferroviária de Feira de Santana

A estação ferroviária “velha” de Feira de Santana ao lado, e ao fundo, da Igreja Matriz.

O trecho entre Cachoeira e Feira de Santana foi o primeiro aberto, no ano de 1876. Em 1942, com a remodelação geral das linhas da região, o trecho entre Conceição de Feira e Feira de Santana passou a ser um ramal, que foi extinto oficialmente em 1975, mas que não operava, pelo menos com passageiros, desde 1964.

Mapa das ferrovias na Bahia

Acima, o mapa das ferrovias em 1900 (em preto). Em vermelho, o que restou após 1940.

A estação nova

Em 1958, a estação “velha” foi desativada e uma nova estação foi construída em ponto mais afastado, isolado na época. A estação ficava onde hoje é a Avenida João Durval Carneiro, ao lado da feirinha do bairro Estação Nova – que recebeu esse nome graças ao ponto da ferrovia em Feira de Santana.

A nova estação deveria servir de saída para a jamais construída extensão da linha para Alagoinhas. Depois de funcionar por poucos anos e ser desativada em 1964, inicialmente serviu de sede para o Funrural, depois foi abandonada e demolida.

A estação nova

A estação “nova”, já abandonada na década de 90.

Tudo indica que a área da estação foi vendida para pagar dívidas trabalhistas com os ferroviários. Após a demolição, foi construído um estabelecimento privado no local.

Há quem diga que a estação nova foi projetada por Oscar Niemeyer, mas não há elementos que possibilitem afirmar essa versão. A Fundação que mantém viva a memória do arquiteto que projetou Brasília, não registra qualquer trabalho de Niemeyer em Feira de Santana.

Estação nova

A frente da demolida estação “nova”. Há quem diga que foi projetada por Oscar Niemeyer.

Atualmente é muito difícil conhecer quem tenha passeado nas locomotivas feirenses, mas encontramos um relato bem espirituoso do jornalista, jurista e poeta Antonio do Lajedinho:

“Na minha infância, na década de 30, Feira de Santana tinha uma grande Estação Ferroviária que, por faltas de rodovias, (em 1930 só existia um carro em Feira) tornara-se o principal meio de transporte de passageiros, cargas e gado, e o
ponto chave do comércio. Situada no fundo da Igreja Matriz (hoje Catedral), quase no centro da Cidade, tinha seus movimentos acompanhados pela comunidade, a qual identificava, pelo apito da máquina, se era trem de passageiro ou carga. Duas ou três vezes por semana saía uma composição com passageiros para Cachoeira, como outras tantas vezes vinham de Cachoeira.

Durante o dia animais de carga e carroças levavam e traziam cargas, vaqueiros embarcavam e desembarcavam gado, enquanto aqueles que tinham o tempo livre, principalmente estudantes que faziam dali um ótimo local de lazer. Era como se fosse uma rodoviária atual, onde alem de passageiros, desembarcassem e embarcassem cargas e animais, sem outro local de escoamento. Nos dias de segunda-feira os trens chegavam carregados com gente, mercadorias, porcos, galinhas e toda produção de Tapera, Magalhães, São Gonçalo, Conceição da Feira, Cachoeira e São Felix. Era uma festa!

Eu, além de um assíduo freqüentador mirim, sempre levava no bolso um bodoque de caça, vez que os fundos da Estação eram um matagal onde as pombinhas costumavam relaxar a vigilância. Foi em uma dessas caçadas que testemunhei um triste acidente na ferrovia: era uma ensolarada tarde de verão e eu acompanhava as manobras que uma máquina fazia na substituição de vagões carregados, quando surgiu uma “calanga” verde, com um comprido e lindo rabo dourado. Ela tinha uma maneira elegante de andar, com um harmônico ondular do rabo. Alguns metros atrás , com a cabeça apoiada no trilho da estrada, um galante calango não perdia os movimentos daquele maravilhoso rabo dourado. Tão absorto estava que a roda da locomotiva surpreendeu-o decepando-lhe a cabeça. Pobre calango: por causa de um rabo bonito, perdeu a cabeça…”


Leia mais sobre as ferrovia feirense e outras ferrovias no site www.estacoesferroviarias.com.br.

A foto, de Antonio Magalhães, na capa deste artigo é de uma das locomotivas que operou em Feira de Santana.

 


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